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Nos anos 70 a população escolar, depois de o ensino se ter tornado obrigatório, estava em crescimento acelerado. Isso era particularmente verdadeiro em cidades como Almada em que população também crescia. O Liceu de Almada tinha sido criado como secção do Liceu D. João de Castro em 1965 e estava instalado em pré-fabricados que mostravam sinais de degradação e iam sendo acrescentados para fazer face ao crescimento do número de alunos. As escolas de Almada, em especial o liceu, tinham sido palco de lutas estudantis nos últimos tempos da ditadura e também de uma greve prolongada imediatamente a seguir ao 25 de Abril.

Na abertura do ano letivo de 1974/75 constata-se que não existiam salas para os alunos que entravam de novo na escola, para o 3º ano (atual 7º ano). O Ministério da Educação revelava-se incapaz de resolver o problema. Esta situação arrastou-se durante todo o mês de outubro.

No início de novembro depois de muitas reuniões, da presença de funcionários do Ministério da Educação no Liceu de Almada. Nas Reuniões Gerais de Alunos começa-se a falar numa solução, ocupar o Seminário de Almada que tinha uma dezena de seminaristas. A proposta acaba por ser aprovada e a ocupação marcada para 13 de novembro.

Há alguns factos a lembrar. Em novembro de 1974 já tinha havido algumas ocupações, mas além de fábricas e empresas ocupadas pelos grevistas, limitavam-se, geralmente, a ocupações isoladas de casas, para famílias que delas necessitavam. Não tinha ainda havido ocupações de terras no Alentejo, nem iniciativas como a da Clínica Popular da Piedade. No Funchal desenvolvia-se um movimento semelhante que levou à ocupação do seminário da cidade.

Das forças políticas então presentes no Liceu de Almada só uma se opôs à ocupação, a UEC. Possivelmente por não querer afrontar a Igreja, possivelmente por ter, nessa altura, uma atitude de travão de tudo o que fosse movimento grevista ou reivindicativo. Porém muitos dos aderentes da UEC iriam participar na ocupação.

Para a ocupação foi convocada uma manifestação. Os estudantes não esperavam muita adesão popular, em especial tendo a oposição do PCP, força maioritária em Almada. Mas essa adesão aconteceu, foram milhares a percorrer ruas de Almada até chegar aos altos portões do Seminário. Estes tinham viaturas militares a reforçá-los. A resistência acabou por ser vencida e a ocupação consumada.

Não durou muito tempo, a ocupação. Passadas algumas horas, quando já à noite se começava a desmobilizar, com a coronha das G3, os fuzileiros partiam os vidros do ginásio em que se reuniam os ocupantes. Alguns estudantes são cirurgicamente capturados e vêm-se rodeados por armas apontadas. A ocupação tinha terminado, porém o objetivo tinha sido alcançado já que alguns dias depois o patriarcado acorda com o Ministério da Educação a cedência do Seminário para aulas do liceu, e o 3º ano teve aí as suas aulas durante esse ano letivo.

Há alguns aspetos a realçar nesta ocupação. O primeiro é que foi feita numa altura em que uma ocupação desta escala não era de todo uma situação comum, não sendo a primeira ocupação, foi das primeiras a ter esta escala, a juntar a população no apoio aos ocupantes, a pretender dar um uso diferente a um espaço e a vencer a resistência militar; o segundo é que se insere em todo o movimento de luta que desde muito cedo ultrapassava os limites impostos pela Junta de Salvação Nacional, limites que o PCP defendia com “unhas e dentes” (às vezes num sentido que não era figurado). Muitas das “conquistas de abril” e talvez a própria vitória da revolução tiveram a sua raiz nessa vontade de construir o futuro com as próprias mãos. Ao longo do ano letivo de 1974/75 foram frequentes os confrontos das tendências da então chamada “extrema-esquerda” com a UEC, o que levou à ocupação e gestão militar do liceu.

A ocupação do seminário de Almada é hoje vista como tendo sido marcante na degradação das relações da Igreja com o poder saído do 25 de Abril, já que a propriedade e usos dados à propriedade da Igreja foram postos em causa. O anticlericalismo histórico de Almada ajuda a ocupação e dá-lhe mais repercussão.

Numa altura em que a participação de jovens na política em Portugal é diminuta, é interessante notar que este foi um movimento de jovens, dos quais poucos tinham mais de 18 anos.

 

Nuno Pinheiro

Doutorado em História Moderna e Contemporânea, Investigador do CIES/IUL

 

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