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A vida interna do Partido Socialista está a passar por um tempo muito atribulado. Não tenho a certeza de que o partido sairá bem dele. Tenho esperança que sim, mas muito receio que não.

Quem, como eu, considera que os partidos devem estar abertos à sociedade e deixar-se influenciar de forma efetiva por ela, não pode estar contra um processo de eleições primárias, com intervenção de simpatizantes.

Mas o processo em curso não foi precedido das garantias de que tudo correria bem. Verificaram-se comportamentos de todos que denotaram empenhamento em trabalhar para credibilizar o processo, e ainda bem. Todos, é uma forma de falar.

Há sempre quem lhe fuja o pé para a asneira. E, em especial num momento destes, ocorrerem cenas de pagamentos de quotas de forma duvidosa é dar tiros no peito da credibilização.

Já tenho ouvido dizer que pagar as quotas de outro militante não é contrário aos estatutos. E não será. Mas convém verificar se um cheque de milhares de euros para pagar quotas de uma lista de milhares de militantes é estatutário ou não.

Há uns anos, um ex-ministro do PS (ex-comunista), perguntado se era ético ser, simultaneamente, deputado da nação e presidente de uma empresa espanhola respondeu que “a ética republicana é o cumprimento da lei”. Ora, não é. É muito mais que o cumprimento da lei.

Se, porventura, a direção do PS considera que o pagamento das quotas dos militantes dessa lista, onde ainda por cima constavam nomes de falecidos, não fere os estatutos, ao menos que reconheça que fere princípios básicos de moralidade. E tome posição em nome da sua própria credibilização, dos seus membros e do Partido Socialista.

A disputa interna dentro de uma organização, seja um partido, uma coletividade ou uma empresa, é uma coisa que tem de ser vista com normalidade, mesmo que não agrade. “É a vida”. O cumprimento dos mandatos de acordo com os estatutos é a normalidade, mas não é uma inevitabilidade.

Aqui, a moralidade é o interesse da própria organização, que os seus membros interpretam, elegendo aqueles que consideram mais aptos para conseguir os próprios objetivos, que num partido político é a vitória eleitoral nas eleições seguintes. A moralidade do cumprimento do mandato é legitimidade do seu cumprimento. E quem a dá, e tira, são os membros da organização.

É por isso que eu considero que um líder tem de estar sempre disponível e preparado para relegitimar e reforçar a sua liderança. E se for posto em causa, a forma de renovar a legitimidade é aceitar, ou mesmo provocar, eleições. E ninguém se devia admirar disto – é comum isso acontecer em todo o lado.

Esta direção do Partido Socialista não entendeu assim, resistiu a eleições internas, e divergiu para umas inéditas eleições primárias. Veremos o seu resultado.

Mas fica uma marca: o atual líder do Partido Socialista mostrou medo. E esse medo deu forma a uma loucura discursiva sem tento, a que, felizmente, se opôs uma contenção verbal responsável.

A vida interna do Partido Socialista está muito atribulada. Tal como a vida do país, com o “des-governo” que temos. A pergunta é portanto, simples, quem bate o pé e tem condições para vencer este ultra-liberalismo português e europeu que nos esmaga e descredibiliza a própria democracia?

A minha resposta é António Costa.

 

Joaquim Barbosa, Vereador do Partido Socialista

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