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A que horas se levanta para apanhar o autocarro? Para ir para o frio e chuva no inverno ou para o sol do verão, sem saber se a camioneta vai cumprir o horário rarefeito, ou até se vai aparecer?

Quantas vezes à distância já vê que depois de um dia de trabalho nem um lugar em pé, folgado ou não, tem disponível numa camioneta a abarrotar por todos os lados?

E quantas carreiras tem de apanhar para chegar a apenas um sítio, com o tempo a multiplicar-se nos compassos de espera entre transbordos? Isto, claro, se houver uma carreira para onde quer ir, de tantos sítios e horas esquecidas… Supondo que o autocarro não se avaria a meio do percurso, ultimamente é sempre uma boa probabilidade de isso acontecer.

Claro que isto é só o princípio, pois certamente não é necessário perguntar quanto do seu ordenado é gasto quer num passe ou na exorbitância do preço de uma única viagem. Mas talvez valha a pena pensar quanto do seu ordenado é diretamente transformado em lucro privado, ou quanto do seu ordenado serve para pagar empréstimos de bancos em “investimento no serviço público”, ou quanto do seu ordenado é transformado em dinheiro para as gasolineiras cujas flutuações de preço justificam tantas subidas mas tão poucas descidas.

E certamente vale a pena refletir naqueles que partilham as suas viagens a conduzir o mesmo caminho por horas sem fim, no stress do trânsito, para depois terem muitas vezes tempos imensos preenchidos por “intervalos”, demasiado pequenos para ser úteis e demasiado grandes para se desperdiçar à espera pelo próximo serviço. Isto enquanto se está a pensar se conseguem cumprir um horário ou se estão a esforçar demasiado um veículo que já viu muito melhores dias. Numa altura em que é cada vez mais fácil ser despedido e substituído, enquanto os fiscais fiscalizam tanto os clientes como os próprios colegas. Não falemos no ordenado deles, também já sabemos à partida que é demasiado pequeno, tal como o da grande maioria que transporta e pelos quais tem a responsabilidade de garantir a segurança.

Parece-lhe conhecido? É normal, eu acabei de descrever a TST e pior ainda, não poderia descrever outra pois não existe outra para descrever. Quem vive na margem sul ou tem a sorte de viver perto do metro ou anda nos Transportes Sul do Tejo e conhece o péssimo serviço que esta presta, provando mais uma vez que o privado não é necessariamente melhor gestor.

Agora imagine se o transporte não tivesse que dar lucro a ninguém, mas que era pensado para nos ser útil, eficiente e ecológico, e que o dinheiro do seu passe ou impostos em vez de ir parar a bolsos privados, bancos, FMI e afins servia para fazer o investimento e manutenções necessárias.

Tal é possível, mas para isso os transportes têm de passar da esfera do privado para a esfera do público, eventualmente até, para o próprio município ou associações de municípios. É preciso que o público não seja apenas uma palavra oca mas um facto, pois o público não tem de enriquecer, apenas de servir os propósitos da população e do meio ambiente.

No fim do dia a resposta é simples, se é necessário à sociedade, deve pertencer a sociedade! Esta certamente é melhor gestora das respostas às suas necessidades.

 

Pedro Celestino

Membro do Núcleo do Bloco de Esquerda de Almada

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