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Insalubre

Luis Bernardino

18 Março, 2015

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O Hospital Garcia de Orta está em plena ruptura. As notícias que nos chegam, os relatos que nos contam e as nossas próprias experiências sempre que recorremos aos seus serviços demonstram-no. Agora uma visita do Presidente da Câmara de Almada, Joaquim Judas, e Jaime Mendes, da Ordem dos Médicos, confirma-o sem sombra para dúvidas.

Há falta de profissionais, nomeadamente radiologistas e anestesistas, para suprir todas as necessidades do hospital, levando a atrasos no diagnóstico e adiamento de cirurgias. Há falta de camas no hospital, com a capacidade actual já largamente excedida.

De quem é a culpa? Será da gestão do hospital? Há quem adore apontar o dedo à gestão pública, acusando-a de ineficiência e irresponsabilidade, até de incúria, mas não nos esqueçamos dos cortes que a saúde sofreu nestes últimos quatro anos, além de medidas várias que visaram o funcionamento da saúde pública em si.

Num seu recente artigo, o ex-presidente do CDS-PP Almada, diz que a culpa é dos ‘outros’, ou seja, do PS1. Diz até que o heroico governo que aturamos há quase quatro anos cortou menos do que a troika exigia.

A esse respeito a OCDE indicou logo em 2013 que o governo tinha cortado o dobro do exigido na saúde2 e, desde então, os cortes e constrangimentos agravaram-se.

Ao mesmo tempo, o governo entregou hospital atrás de hospital público para as mãos da gestão privada, transformando os nossos impostos em lucro para os grandes titãs da saúde privada como os Mello e os Espírito Santo. Chega de atirar areia para os olhos dos Almadenses!

Perante a realidade de que há cada vez mais gente sem dinheiro para a sua medicação, Paulo Macedo, ministro da Saúde, diz que a situação seria “muitíssimo pior” sem as medidas tomadas pelo governo PSD-CDS que integra. Mas não foram as medidas tomadas por esse executivo que levaram a esta situação calamitosa?

Além dos cortes e das PPP temos também a asfixia dos serviços de primeiros-socorros e bombeiros, o repúdio por jovens médicos, enfermeiros e técnicos através da proibição da contratação dos mesmos a não ser através de empresas privadas terceiras – proibição essa relaxada apenas no principio deste ano.

Houve um esbulho completo e continuado do Serviço Nacional de Saúde (SNS) sob a tutela do actual ministro da Saúde que é pouco mais que um gestor financeiro. Perante todas as crises na saúde que nos assolaram nos últimos anos (salmonela, mortes nas urgências, hepatite C, para referir as mais recentes) tudo o que o ministro soube fazer foi balbuciar sobre números, cifras e quantias e agora está paralisado, à espera das legislativas. A sua inacção perante o estado crítico do SNS se não é criminosa é anti-ético.

Conforme denunciado por Pedro Oliveira, Deputado Municipal de Almada e Deputado da União das Freguesias de Laranjeiro e Feijó, no seu artigo “A Saúde é um direito!” publicado no passado dia 9 de Fevereiro, os serviços de saúde de proximidade e o seu estado de carência em termos materiais e de serviço é sentido todos os dias pelas gentes de Almada.

Infelizmente o Hospital Garcia de Orta que nos serve é vítima de todo este mau trato ao longo destes últimos quatro anos, com falta de camas, profissionais e meios que levaram já à demissão em bloco da chefia dos serviços de urgência.

Ao mesmo tempo a população servida pelo hospital, a mesma que não consegue já comprar todos os medicamentos que precisa, que descura a sua saúde por motivos económicos, fica mais vulnerável e abandonada.

Cuidados de saúde urgentes estão cada vez mais longe, demorando cada vez mais tempo para que se preste auxílio a quem precisa. Tempo esse, que pode significar a diferença entre dias e semanas de recobro, entre fisioterapia e amputação, entre a vida e a morte.

Os mercados agradecem o sacrifício.

 

1 Governo PSD/CDS mais pela Saúde – Cidade Informação, 02.03.2015

2 Health Spending Growth at Zero – Which countries, which sectors are most affected? – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, 2013

 

Luís Bernardino

Núcleo do Bloco de Esquerda de Almada

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