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A distância ajuda sempre a perspectiva e, no rescaldo do ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo, começam a definir-se novos contornos da política europeia. As forças conservadoras de índole ultraliberal que têm a Europa na mão estão a aproveitar, e bem, a tragédia francesa para assegurar a hegemonia ideológica num ano que traz a possibilidade de uma viragem política.

Uma viragem não necessariamente à esquerda, pois existem forças políticas de extrema-direita que denunciam as medidas de austeridade como parte do pacote eurocéptico (veja-se o inesperado e indesejado apoio da Front National ao Syriza) – mas é mais fácil à direita polir e apropriar as posições da extrema-direita do que da extrema-esquerda.

Daí que o aproveitamento político do ataque em Paris seja na forma de medidas que se assemelham e muito às defendidas pelas várias cúpulas nacionalistas e fascistas europeias, nomeadamente o controlo de fronteiras, populações e migrantes, maior policiamento, traçar de perfis tendo como base raça, religião e cultura de origem – mas tudo polido, um fascismo e xenofobia de fato e gravata que é debatido em cimeiras com bandeiras azuis e douradas em vez de vermelhas e negras.

Como foi demonstrado pelo “contra-ataque” da Europa, marcou-se a data do debate à revisão do Acordo de Schengen e, num par de semanas, foram presos inúmeros potenciais terroristas. Numa Europa que reage a ritmo quase geológico em todas as matérias, em que cinco anos de dor e miséria na periferia da União Europeia nunca colocaram em dúvida o ressarcimento da banca agiota, alinham-se agora todos os lideres europeus para rever um dos tratados permite à União Europeia, tal como a conhecemos, existir.

Os detidos nestas operações estavam, claro, já bem identificados e o seu passado de crime e terrorismo bem documentado; tal como o dos autores do ataque ao Charlie Hebdo. Tudo o que foi preciso foi activar os meios.

A acção é admirável mas suscita a seguinte questão: se o ataque ao Charlie Hebdo nunca tivesse acontecido, teriam sido presos todos estes suspeitos? Estaríamos hoje a falar de um ataque à polícia belga, conforme indicam os planos dos detidos nesse país? Afinal, os autores do ataque ao jornal francês estavam identificados, as suas comunicações documentadas, a sua ideologia e posição radical e violenta presente em fichas e dossiês de polícias que vão da Interpol aos Gendarmes franceses.

O facto incontornável é que as autoridades sabiam e sabem destes elementos terroristas, em vários países e com vários planos. Mesmo enquanto os governos europeus se apressam a fortificar os muros da Fortaleza Europa, sabem que as medidas actuais de vigilância e segurança conseguiram identificar e catalogar uma panóplia de extremistas violentos. Os meios é que não foram activados. Então para quê muscular, à custa de liberdades e direitos, essas medidas já tão eficazes?

Para garantir a hegemonia.

Numa altura em que os eleitores extremam os seus campos ideológicos e cresce o apoio à extrema-esquerda e à extrema-direita, a direita e o centro-direita no poder reconhece que isso acontece às custas dos seus partidos. Os partidos dos vários “Arcos da Governação” europeus são partidos-cartel, sobrevivendo apenas dentro da rotatividade do poder. O bipartidarismo conservador, construído de posições moderadas, programas indistinguíveis e financiado pelos interesses financeiros nacionais, europeus e até americanos (não esqueçamos o TTIP que está prestes a estrear, apesar de forte oposição dos povos europeus).

A estratégia de sobrevivência é simples: adoptar a dialéctica da extrema-direita e amordaçar a extrema-esquerda. Não pode ser o inverso porque a extrema-esquerda é anticapitalista, e logo ameaça quem financia os partidos do “Arco da Governação”. Ao mesmo tempo, a extrema-direita é corporativista, posição com fortes harmonias capitalistas, o que facilita a apropriação de discursos e pontos de luta política.

Assim, ao adoptar medidas xenófobas e reaccionárias, as forças vigentes na europa procuram sanar pontos de discórdia com a extrema-direita. Da próxima vez que Marine LePen vier queixar-se da imigração e do espaço Schengen, Hollande dirá que o acordo está já a ser revisto e que vai haver maior controlo de fronteiras e pessoas e, portanto, de que se está a queixar a Front National?

A extrema-esquerda, que tradicionalmente se posiciona a favor da livre circulação dos povos, da tolerância e convivência com diferentes crenças e modos de vida, acaba por ser vista quase como colaboracionista com o terrível papão do terrorismo ao recusar participar no frenesim xenófobo e islamofóbico que se avizinha a médio-prazo na Europa.

E assim se vai fascizando a Europa: o bipartidarismo acolhe no seu seio as medidas autoritárias, xenófobas e nacionalistas da extrema-direita para evitar a ejecção do ciclo bipartidarista e, ao mesmo tempo, vai subtil e obliquamente estigmatizando a extrema-esquerda, tudo numa busca pelo poder e pela conservação da relação de forças entre o centro e a periferia da União Europeia para proveito dos interesses económicos e financeiros.

 

Luís Bernardino

Núcleo do BE de Almada

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2 Respostas a Os contrafortes da fortaleza Europa

  1. Das duas ,,UMA ,,,ou tem andado a dormir ou é cego !!! O ataque não teve aproveitamento de nada ,o Islamismo e a invasão Europeia é uma realidade e eles Mulsumanos nem sequer o escondem e varias vezes tem feitos manifestações e mostrado os seus obectivos para a Europa ,derrubar a Democraçia e Instalar a lei da Sharia ,basta ir fazer uma pesquiza na NET e em todos os paises Europeus eles defendem o mesmo objectivo :a Islamização da Europa,so um cego ou um ipocrita se recusa a ver aquilo que eles Islamicos nem sequer escondem ,,,o Nacionalismo tem crescido na Europa devido ao desconforto dos povos Europeus e acima devido a politicos Traidores do povo ipocritas e covardes ,,,abra os olhos homem QUE JÁ É DE DIA !!!!

  2. E já agora até acrescento ,até quando os ipocritas covardes traidores dos povos da Europa vão continuar a fechar os olhos há pedofilia entre Mulsumanos ,aos maus tratos nas mulheres mulsumanas e até Europeias ,aos ataques na Europa a Gays e pessoas que bebem alcool ,TUDO LUTAS DA ESQUERDA E DE GRANDES HUMANISTAS que hoje muitos Europeus olham e assobiam para o lado como se não estive-se a acontecer !!! ???
    ATÉ QUANDO ?????

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